Muito tenho pensado ultimamente acerca das motivações que há já alguns anos me colocaram na cabeça esta necessidade de encenar a ‘Noiva de João’ de Adolfo Portela. Algumas certezas tenho; que é um texto, do qual desde a infância conheço as cantigas, que os meus pais (contemporâneos da representação de 1945) sempre me cantaram; que é um texto recheado de materiais facilmente carreáveis para a nossa actualidade – a latente insatisfação do povo face aos seus governantes, o aumento dos impostos ferindo os mais necessitados, o terror face à iminência da guerra, e a inabalável força da fé, que traz aos mais desfavorecidos as forças necessárias para continuarem a aguentar o peso de quotidianos duros de trabalho, desamparo e agruras -, em suma um texto ideal para esse difícil exercício onde litigam a tradição e a inovação.

Vivemos numa terra onde a expressão cultural quase se resume às actividades criativas dos ranchos folclóricos, das bandas de música e algumas poucas iniciativas de índole teatral, durante décadas submetidos a uma espécie de rigidez de estilos da qual só recentemente se vem libertando, através da corajosa intervenção de novos maestros e coreógrafos que lá vão introduzindo alguma inovação – apesar de sempre vigiados de perto pelos eruditos defensores de uma tradição mais ou menos serôdia, agarrada a cânones muitas das vezes mal copiados de tradições alheias.

Quem actualmente pretende inovar depara-se com a necessidade de abrir os horizontes culturais de públicos mal habituados a espectáculos de papinha feita, em que imperam o ilustrativo e a cópia de outras culturas que não a nossa. Não é possível dar grandes saltos de repente – tão longos tempos de estagnação pagam-se caro e como dizia muito avisadamente Almeida Garret: ‘ o teatro apesar de ser um excelente meio de civilização, apenas se desenvolve onde esta já existe’. Pois é, é na presença deste dilema que os criadores têm que desenvolver o seu trabalho.

Necessário se torna portanto que não se dêem passos mais largos que as nossas próprias pernas e se, por um lado temos que acompanhar a modernidade, por outro temos por certo que fundar essa mesma modernidade, isto é, encontrar os modelos da nossa própria modernidade. Há vários caminhos para o fazer, do ponto de vista dos agentes culturais. Por um lado, poderemos olhar apenas em frente e experimentar criar bens culturais apenas virados para o futuro, utilizando os meios disponíveis actualmente, a tecnologia evoluída, os textos modernos, o culto da imagem, a ausência de uma qualquer mensagem, privilegiando a ‘obra aberta’, aumentando o espaço que sobra à criatividade do receptor dessas mesmas obras, mas teremos que o fazer faseadamente e sem nunca esquecermos as necessidades específicas do ‘nosso público’.

Ainda hoje o teatro e as artes performativas são encarados em grande medida como artes de diversão, coisas lúdicas, algo que esperamos que não nos faça pensar muito, antes nos leve a esquecer rapidamente os problemas da vida, algo que nos permita distanciarmo-nos do peso do quotidiano, em suma viver a ‘magia’ de uma vida que ‘até poderia ser a nossa’ mas que apenas o é tangentemente.
Ora Adolfo Portela, escritor, poeta, em suma homem das artes e da cultura, figura proeminente do seu tempo, soube cristalizar muito bem as preocupações do seu povo de Águeda (por quem trocaria mil cidades) e diria que, como ninguém, retratar a alegria que emanava do coração dessas gentes que em finais do século XIX viviam essencialmente à volta do rio, verdadeira auto-estrada para a civilização.

Sentia-se naquele tempo que a monarquia não solucionava, assim como hoje se sente e questiona a democracia por na prática apenas legitimar aquilo a que se poderá chamar ‘ditadura democrática’. Então como agora se dava ao povo a ilusão de que comandava os seus próprios destinos, quando escolhia os seus governantes, normalmente bem falantes, apesar de desconcertantemente incultos e incapazes de solucionar criativamente os problemas reais, os que se lhes apresentavam no terreno, optando pelas eternas promessas e sempre se desculpando com a inércia do poder central. A figura dos políticos locais como ‘Jericos do Governo’ tão actual que até aflige perceber como passado mais de um século tudo continua tão semelhante – se é que não aumentou mais ainda o distanciamento entre os que governam e os que são governados. E, depois, os compadrios, os interesses meramente pessoais, que os políticos, então como agora, sempre privilegiaram.

Apesar de tudo, a poesia de Adolfo Portela soube trazer à liça os aspectos positivos que o quotidiano daqueles tempos oferecia – a alegria com que as pessoas, cantando, afastavam as suas tristezas, e, a capacidade de reagir colectivamente dessas mesmas gentes.
Gente que sendo quase ignorante e na maior parte dos casos analfabeta, através do culto da espiritualidade que a religião lhe facultava, ia enquanto corpo colectivo, encontrando defesas face às contrariedades da vida. Gente que tinha na fé um factor de união, consolo e motivação.

Hoje, passado mais de um século, os velhos tem protecção social – os lares são uma solução, apesar de questionável o humanismo que lhes assiste -, a igreja perdeu muita da sua força, as máquinas de lavar acabaram com as lavadeiras, as salineiras e as sardinheiras foram substituídas pelas grandes superfícies, já ninguém anda descalço, as estradas substituíram o rio, as cantigas foram substituídas pelos leitores de CD’s e cada um está no seu compartimento a ver a sua televisão. Acabaram-se os serões, já ninguém visita ninguém. Em suma, os nossos espaços de sociabilidade estão quase reduzidos a zero ou então ilusoriamente ampliados pela navegação nesse espaço virtual a que a Internet nos transporta. Tudo fazemos actualmente para podermos viver uma falsa sensação de independência, tudo fazemos para ficarmos sós, nós e os nossos telecomandos, porque nem sequer nos queremos levantar do sofá/pântano em que, com uma falsa sensação de conforto, nos atolamos.

Assim, como ficar indiferente a um texto em que nos é oferecido apreciar a vida de gentes impolutas, singelas na sua ingenuidade, tão contagiantemente alegres e também tão contagiantemente tristes, mas que não ficam paradas, que aceitam a sua ‘sina’ solucionando colectivamente, unindo-se na alegria e na adversidade, reconhecendo o valor da simplicidade, purgando-se e encontrando energias ao valorizarem as coisas simples da vida.
Os tempos passaram, Águeda está no mesmo sítio, este lugar onde ainda é possível viajar a esses idos tempos, já que afinal não se evoluiu tanto como isso.
É certo que desde então, surgiram os ditos grandes ‘motores de desenvolvimento’, de uma sociedade agrícola por excelência, com uma ligação à terra fortíssima, com a indústria e os serviços a assumirem-se como os grandes promotores do chamado progresso. Um progresso que gerou novas soluções e novos problemas, mas sobretudo um progresso importado – aceitamos pacificamente o nosso atraso face a outros povos, logo outras civilizações (veja-se a ‘pena’ que sentimos por exemplo dos povos africanos, para que se perceba como gostamos de padronizar as coisas) – progresso que nos subalterniza face às ditas culturas avançadas – leia-se América e Europa -, que têm dessa forma o caminho facilitado para exercerem um domínio quase absoluto sobre as nossas políticas sociais, económicas e culturais.

Percebermos a nossa memória atávica colectiva é necessário cada vez mais, para nos fortalecermos e resistirmos à nocividade desta dependência do ‘tudo o que é estrangeiro é que é bom’. Aliás, nada é mais falso, nada é mais enganoso do que esse sentimento que os filhos têm de que os pais estão obsoletos, que eles agora é que sabem tudo, que dantes era o tempo da ‘côdea’.
Somos um povo com tradições de expansão, de domínio, de civilização de outros povos, sentimos orgulho por termos sido responsáveis por termos dado novos mundos ao mundo. Mas não temos coragem para perceber como se perderam ou diluíram esses valores, ao ponto de hoje, sermos tão pequenos (e não me refiro à pequenez territorial), tão dependentes, tão boquiabertos face aos ‘truques’, às ilusões com que as ‘culturas ditas mais evoluídas’ nos atrofiam. E, digo atrofiam, porque sendo exteriores a nós, não colam na nossa realidade e porque fortemente difundidas nos fazem sentir cada vez mais pequenos.

É pois necessário que recuperemos os valores humanistas das nossas gentes, a união, a alegria, a simplicidade, e a ingenuidade que as fazia evoluir de uma forma natural, resistindo aos artificialismos que apenas servem a ‘sociedade de consumo’ que eu chamaria mesmo de ‘consumo desenfreado’.
O materialismo impôs-se ao idealismo, a família desagregou-se, a equalização artificial dos géneros, confundindo as valências de homens e mulheres, a maquinização, em suma a quebra de uma certa ‘ordem natural das coisas’, sem olhar a meios nem a consequências, desembocaram neste pântano em que vivemos. Hoje tiram-se cursos superiores para emigrar ou ir para o desemprego, a sobre-produção e o desperdício tomaram conta de nós, o desinteresse pelos outros, a menos que por detrás estejam interesses nossos, este ‘salve-se quem puder’ que está na base de uma certa ‘esperteza’ que se reflecte na fuga às causas colectivas, na dificuldade cada vez maior de encontrar objectivos comuns, que encontra o seu expoente na falta de um objectivo nacional, em última análise.

Por isso, desengane-se quem vir que esta necessidade de recriar um texto tão antigo obedece a um qualquer impulso meramente atávico ou a um revivalismo tacanho. Nada disso, é um projecto só possível por termos a consciência de quem somos, de onde vimos e a coragem de querermos ter o controle dos caminhos a trilhar, à nossa própria escala, sem nos querermos comparar com ninguém, num movimento de busca da nossa própria identidade enquanto comunidade. Que sejam as cantigas os nossos lugares de encontro, que sejam os nossos mitos a enformar a nossa cultura, que cumpramos de dentro para fora os nossos desígnios comuns e nos demos tempo para compreendermos o mundo que nos cerca, igualmente enfermo de uma crise geral de identidade que não raro desemboca nas guerras, na fome e na pobreza material e, mais cruel, espiritual.
Que Adolfo, tão desconhecido, apesar de glorificado, faça reviver em nós a capacidade de gostarmos de nós próprios, de darmos valor aos nossos conteúdos enquanto indivíduos e enquanto comunidade.

Aconteceu Abril mas não se cumpriu. Porque somos nós, não é um qualquer decreto ou despacho, porque tem que ser efectivamente o nosso Abril e não outro.
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